sábado, 6 de outubro de 2007

Solidariedade e História


Um dia pensando “com meus botões”, sobre os seres humanos e sua vida no decorrer da história da humanidade, acabei por refletir sobre a solidariedade. Todos sabemos, mas poucos meditam profundamente em seu coração que ninguém vive sozinho. “Nenhum homem é uma ilha” É a verdade mais verdadeira que existe, no sentido literal da palavra “ninguém”. Quem disser que passou a vida sozinho está louco.
O mais longínquo eremita necessita de alimento, roupas, remédios que são fabricados por outras pessoas. As carmelitas, que optam pelo silêncio do Carmelo, necessitam viver em extrema solidariedade. O controlador de vôo em sua profissão solitária, depende da prontidão do piloto em atender suas recomendações. Vemos alguns acidentes aéreos, que só acontecem devido a esta falha de comunicação. O médico em sua delicada profissão de salvar vidas, quanto não necessita do auxílio de outrem? Até mesmo da vontade e dedicação do paciente em cumprir as exigências de remédios, alimentação, etc. O Professor!!! Coitado do professor!!! Como depende do sistema educacional e da família de seus alunos no auxílio ensino/aprendizagem ! O produtor rural, para que tenha uma boa colheita conta com o apoio de tantos lavradores, sem falar na indústria que lhes fornece o adubo e defensivos, sem os quais hoje em dia é impossível colher. O varredor(a) de rua, o faxineiro(a) em geral depende grandemente da boa educação das pessoas, para que seu serviço realmente apareça. Aquele solitário operador de sistemas de computação, ou de qualquer outra máquina, depende de tantas peças e tantas invenções feitas por outros indivíduos!!! Até o Amir Klinck, navegador solitário, é monitorado por GPS em toda sua rota, onde outros estão vendo e auxiliando de alguma forma a sua aventura.
A natureza nos proporciona um espetáculo de solidariedade quando mostra os gansos voando em posição V, onde o líder vai à frente e quando se cansa é substituído por outro, quando um adoece, fica dois com ele até que melhore. A sociedade das abelhas, das formigas trabalhadeiras, como nos edificam com seu exemplo.
E nós, seres humanos, apesar de termos a convicção de que não se vive só, de que dependemos de outros, sempre queremos ser auto-suficientes. Volta e meia queremos puxar o tapete do semelhante, principalmente se for uma pessoa que está se destacando de alguma forma, até pelo seu serviço correto e compromissado, ou por sua disponibilidade em servir sem procurar recompensa.
O ser humano muitas vezes não é solidário!!! Solidariedade é estar sempre pronto a auxiliar, é deixar de lado, por um tempo os nossos interesses e trabalhar em favor do outro. Eu penso que quanto a isso o mundo piorou neste século... Não sei em porcentagem, porque não elaborei uma estatística, mas em número, tenho certeza. Talvez seja porque a humanidade cresceu muito e assim, o número dos egoístas também aumentou.
Dizem que uma pessoa foi convidada para ir visitar o inferno e lá chegando viu um enorme caldeirão, cheio de uma comida deliciosa. Em volta dele estavam muita gente esfomeada e segurando cada qual uma colher enorme que não podiam com ela, alcançar a boca. Depois de ver aquele sofrimento horrível no inferno foi até o céu e lá estava na hora do almoço. Havia um mesmo caldeirão com uma deliciosa comida e as pessoas com colheres enormes, mas não passavam fome e sim se alimentavam normalmente. Sabem porquê? Os que foram para o céu estavam acostumados a serem solidários aqui na terra e vendo que cada qual não podia levar a colher até sua própria boca a levavam uns aos outros cheia de alimentos e assim todos podiam comer a vontade. E para o inferno foram os egoístas, que acostumados a sempre procurar o seu próprio interesse e tirar vantagem em tudo, não abriram a cabeça para a criatividade e inovação que procede do auxílio mútuo.
É o retrato do nosso mundo onde impera o egoísmo, “onde embora milhares e milhares de homens tenham morrido de fome ao longo da História, esta é uma característica exclusiva da moderna civilização industrial, resultante dos modelos econômicos adotados.” E olha que o mundo produz alimento suficiente para alimentar o dobro da população mundial atual, que é de 6 bilhões de habitantes.
“Quando chegará o dia em que cada homem não queira ser, ele somente, o feliz, o ditoso, mas tornar extensivos a todos os semelhantes os bens da natureza, as graças do céu e os milagres da inteligência? Nesse dia, certamente, não haverá mais guerras nem revoluções, nem soldados pelas ruas a vigiar homens como quem vigia feras a solta, nem tampouco leis para lembrar a cada um o seu dever para com o irmão. Nesse dia, talvez o homem compreenda melhor, em toda a sua plenitude, o verdadeiro sentido do preceito divino... amai-vos uns aos outros... e, como dizia Eça de Queiroz, ‘cada um ceda, então metade do seu pão àquele que tem fome, estenda metade do seu manto àquele que tem frio e acuda com seu braço àquele que vai tropeçar!’ ” (A. Pousada)
(Isabel C. Menezes D. Esposti)

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