Acredito ser conhecida de muitos aquela história do lenhador que todos os dias tinha de sair para cortar lenha e ficava fora o dia todo. Mas ele possuía um bebê que ficava em casa em companhia de um cão pitt-bull. O lenhador confiava naquele cão, pois desde há muito se mostrava seu amigo e apesar das críticas e conselhos dos vizinhos confiava-lhe a guarda de seu filhinho para que pudesse trabalhar sossegado. E os colegas de trabalho sempre lhe prevenindo: “ - Um dia este cão ainda lhe causará um desgosto!” “- Cuidado que este cão é perigoso!” Mas ele não dava ouvidos, apesar de ficar com um ar de preocupação. Certa vez, tendo trabalhado o dia inteiro, ao voltar para a casa, encontrou na porta o cão com a boca toda ensangüentada e lhe abanando o rabo. O homem caiu das nuvens! Pegou o machado e desceu na cabeça do cão, matando-o no mesmo momento e correu para dentro!!! Qual não foi sua surpresa ao encontrar o bebê ileso sorrindo no bercinho! Aquele cão fiel havia defendido o bebê de um ataque de outro animal e morreu pela desconfiança depositada pelos vizinhos na cabeça do lenhador.
A falta de ética mencionada no fato acima nos auxilia na reflexão sobre nós mesmos. Ficamos apavorados com aqueles vizinhos do lenhador e fazemos o mesmo em nossas convivências. Embrulhamos as pessoas com nossas críticas, rotulamos, carimbamos e enviamos como se fossem encomendas, de porta em porta.
A ética não é um conjunto de normas, por isso não tem uma definição específica. É tudo aquilo de bom que gostaríamos que os outros nos demonstrassem por atos concretos de civilidade como principalmente, o respeito, a amizade e a solidariedade. Inclusive isto faz parte dos ensinamentos da Igreja Católica e são os frutos do Espírito Santo: “Caridade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência, castidade.”(Gl 5,22-23 vulg.)
Como queremos ter nossa privacidade respeitada se em casa quando chega uma correspondência de nosso irmão corremos a abrí-la! No trabalho não respeitamos os limites de nossa jurisdição e enveredamos a bisbilhotar o funcionamento do setor do outro, que não nos diz respeito! Na rua não respeitamos o trânsito, nas filas corremos à frente! Falamos do outro ou com ou outro o que vem na boca!
Já dizia o iluminista Voltaire: “ Posso não concordar com nada do que você diz, mas defendo até a morte o direito de dizê-lo.” Não é bem assim. Nem tudo precisa ser dito. “Há vários modos de matar um homem:/ com tiro, a fome, a espada/ ou com a palavra –/ envenenada./ Não é preciso força./ Basta que a boca solte/ a frase engatilhada/ e o outro morre/ - na sintaxe da emboscada. (Poeta Afonso Romano de Sant’Anna)
Eu tinha uma professora no ensino fundamental, que hoje é minha colega de trabalho, muito querida pelos alunos do Colégio Dr. Miguel Couto Filho, Dona Edilma Fontes Vargas. Ela sempre dizia e repetia em suas aulas duas frases da tradição popular: “ Se a sua janela é de vidro, não jogue pedra na janela do vizinho.” “O seu direito termina, quando o direito do outro começa.” É a ética resumida... Dar a cada um segundo sua dignidade de pessoa humana, criada a imagem e semelhança de Deus.
Jesus Cristo quando foi perguntado sobre o tributo a César, respondeu: “Dai, pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” ( Mt 22; 21)
A Roma Antiga foi senhora do mundo então conhecido, mas caiu. Dentre os fatores de sua queda a falta de ética que campeava nos corredores do palácio, onde a traição era comum entre aqueles que disputavam o trono imperial; (ver filme Gladiador) entre a “ralé” como dizia Nero, que se deleitava nos espetáculos sangrentos onde os cristãos eram mortos por intolerância religiosa e também com relação aos ‘bárbaros’ que subestimados pelos romanos acabaram por tomar a cidade, transformando o vasto império em reinos bárbaros.
Fala-se muito atualmente em bioética, que nada mais é do que a ciência de manipular a vida natural sem ofender a dignidade sobrenatural dos seres vivos e principalmente do ser humano dotado não só de corpo, mas de uma alma imortal.
Hoje em dia ser ético é ser evoluído! Não adianta manter aparência de rico, andar com roupas da moda, conversar somente com pessoas da alta sociedade, cumprimentar as pessoas que julga inferiores com irônica superioridade, ou passar por cima dos outros, em todos os sentidos. Não é pelo fato de você querer ser mais que alguém, que de fato o será! É preciso reconhecer as inteligências múltiplas. Sempre existe alguém melhor do que nós em alguma coisa neste mundo. Ninguém é bom em tudo que faz. Ninguém é O BOM.
(Isabel Menezes / Varre-Sai)
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